sábado, 16 de maio de 2009

De A a Z: PC1, o F1 feito em casa

Talvez, a incursão do construtor Peter Connew na F1 represente o capítulo mais romântico da história do automobilismo. Afinal, o inglês largou o emprego, reuniu os amigos e construiu, no fundo do quintal de sua residência, seu próprio monoposto de corrida. Foi em uma feira de carros de competição, no início de 1972, que o PC1 atraiu a atenção do piloto francês François Migault, portador de uma pequena cota de patrocínio da Schell. Enfim, o dinheiro necessário para a realização do sonho de Connew.

Em entrevista ao jornalista Marcus Simmons, de F1-Racing, Connew revela que, durante sua aventura, contou com a ajuda de um piloto, uma namorada, dois sujeitos que davam uma força de graça e três amigos: "o mecânico-chefe Roger Doran, seu pai Ron Doran, especialista em solda, e Barry Boor, um sujeito pau-para-toda-obra, professor de carpintaria".

Pretendiam estrear o carro no GP da França, na temida Clermont-Ferrand. No entanto, um contratempo atrapalhou os planos da equipe. "Nosso caminhão," diz Connew, "quebrou e o conserto demorou. Ficou claro que não íamos chegar a tempo para a corrida. No fim, valeu a pena. Fizemos mais testes e aproveitamos para curtir. A família de François era rica e ficamos hospedados num castelo deles. Todos nós dormimos em quartos grandes com aquelas camas com dossel, como as que a gente vê nos filmes sobre a nobreza antiga. Deu para entender por que François não precisava arrumar um emprego como todo o mundo."

O carro estreou no GP da Áustria. Completou 22 voltas e abandonou com um problema de suspensão. "Não me senti exatamente orgulhoso, porque havia muito trabalho e sobrava pouco tempo para pensar no que estava acontecendo. Além disso, durante os treinos nosso carro derramou óleo na pista. Assim, não éramos os caras mais populares dos boxes."

Sempre com Migault ao volante, o monoposto passou mais tempo nos boxes do que na pista. E, depois de duas tentativas frustradas de classificação, na Alemanha e na Inglaterra, o projeto foi abortado. "Estávamos quebrados," diz ele, "e sem esperança de que aparecesse alguém para nos ajudar. Mergulhei na maior depressão da minha vida, mas também senti alívio porque estava encerrado um período no qual trabalhávamos 20 horas por dia, todos os dias da semana, e o pensamento de poder dormir uma noite completa era irresistível."

Foram pouquíssimas voltas. Porém, o projetista garante que o sonho de competir na F 1 foi plenamente realizado. "O importante", definiu, "é que, apesar de não termos sido competitivos, nós, um punhado de pessoas comuns, construímos uma equipe e um carro de F 1 e fomos correr. Há livros sobre a categoria em que nosso monoposto aparece ao lado da Ferrari, Tyrrell e outros grandes esquemas. Algumas pessoas podem não entender mas, ao contrário do que elas pensam, nós realizamos, sim, o nosso sonho."

E quanto custou para construir o PC1? "Hoje é difícil calcular. Sem corrigir o dinheiro, gastamos algo entre R$ 30 mil e R$ 60 mil. Compramos um motor de segunda mão. Vimos um anúncio de um Cosworth DFV 902, usado pela McLaren em 1969. Um dos diretores da equipe, Phil Kerr, nos deixou levá-lo, apesar de eu ter apenas uns R$ 3 mil em dinheiro. Acho que ninguém mais faria isso."

Posteriormente, o chassi foi modificado para receber um motor Chevrolet. Pilotado pelo suíço Pierre Soukry, o carro reapareceu em algumas corridas na F5000. E, depois de sofrer um acidente em Brands Hatch, com o inglês Tony Trimmer, o Connew foi retirado das pistas.

10 comentários:

Bruno Santos disse...

Depois do Migault ainda o David Purley correu, se não me engano, uma prova extracampeonato com o carro, já com o patrocínio da LEC, mas não deu sequer uma volta durante a corrida. Reclamou da falta de segurança do carro e pediu para instalar um disposito para desligar o motor em caso de acidente, nas primeiras curvas o aparato deu problema e cortou o motor. Fim de prova para ele...e o carro não duraria muito também, foi vendindo em peças...

Luís Augusto disse...

Outros tempos... com a parafernalha eletrônica de hoje, um projeto desses é impossível!

Bruno Santos disse...

ops...vendido**
Abraços.

Felipão disse...

Grandes relatos, Bruno.

Anselmo Coyote disse...

Essa era a F1 dos garagistas. Tempos bons.
Boa Felipão.
Abs.

Felipão disse...

Valeu, Anselmo!!!

Tohmé disse...

O Coyote matou o termo: GARAGISTAS.
Grande época, de loucuras e irresponsabilidades. Delícia pura.

Marcos Antônio Filho disse...

esse cara foi um visionário e lutador, fez do sonho dele realidade,mesmo que por poucas voltas. história excepcional.

Ron Groo disse...

Tinha lá seu charme...
O bico lembra o nariz do Alain Prost

Hugo Becker disse...

Cara, que bela história. Tenho fotos desse carro aqui no meu arquivo, mas não poderia imaginar que a história tinha sido tão bacana assim...