segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fraude na loteria

A organização do Grande Prêmio de Trípoli já não sabia mais o que fazer.

Há anos a prova era um fracasso de público e repercussão internacional.

O que representa um grande problema para o Automóvel Clube local, já que o regime fascista havia investido muito dinheiro no novo circuito de Mellaha. Tudo para colocar a colônia italiana na rota do turismo mundial.

Para 1933, adotam uma estratégia diferente de divulgação, com a criação de uma loteria. Segundo o regulamento, seriam sorteados 30 bilhetes, um para cada piloto inscrito. Obviamente, seria premiado o portador do bilhete que correspondesse ao número do vencedor da corrida.

Astro nos tempos de Grand Prix, Achille Varzi é subitamente abordado por um estranho, enquanto passeava com uma namorada pelos jardins do hotel localizado na cidade africana.

Após se apresentar como um comerciante da cidade de Pisa, Enrico Brivio pede para conversar em particular com o piloto.

Sem questionar, a moça volta para o quarto, deixando Varzi a sós com o estranho.

"Achille, estou aqui para pedir que vença a corrida".

Ao perceber a testa franzida do piloto, Brivio dá um passo adiante e, agora, bem iluminado por um poste, exibe, além de sua careca brilhante, o bilhete de loteria com o número 16, que correspondia ao carro de Varzi na corrida.

Então, com um movimento rápido, abre o casaco e retira um envelope.

"Aqui tem um documento, onde me comprometo a repartir o valor do prêmio com você. Por isso, vença a corrida".

Em um breve momento de inocência, Varzi dobra o documento e coloca no bolso.

“Farei o possível” garante com um aperto de mão.

Após o encontro, sua mente é inundada por uma série de pensamentos.

Misturada aos grandes momentos de sua carreira, surge a imagem daquele homem baixinho e careca.

Inclusive, algumas coisas passam a fazer sentido.

Será que havia dado uma falsa impressão ao comerciante?

Considerado um herói em seu país, estava sempre ao lado de belas mulheres e ao volante dos carros mais desejados de todo o mundo. Agora, segue por um caminho tortuoso, pois já não sabe com o que exatamente havia se comprometido.

"Sou um vitorioso. Já ganhei na loteria."

Na recepção do hotel, Varzi pede por um telefone reservado, pois precisa chamar um amigo com urgência.

-"No bar, senhor. A essa hora, a maioria dos hóspedes se encontram no restaurante do hotel".

Dirige-se para o local indicado e fornece um determinado número de quarto para a telefonista.

"Tazio??? Não vai acreditar..."

***

Era um dia de sol em Trípoli e, do alto da tribuna, Varzi é cumprimentado por Brivio. Balança positivamente a cabeça, sorrindo, e se acomoda no cockpit do Bugatti.

Recebe uma pancada na cabeça. Era “GianniBattaglia, em um gesto de camaradagem.

Logo depois, Italo Balbo, governador de estado, baixa a bandeira italiana e os pilotos partem em busca de reconhecimento, fama e dinheiro.

Varzi fica um pouco para trás, mas a corrida era longa, não podia se desesperar.

Depois de ocupar a liderança por algumas voltas, Giuseppe Campari, herdeiro da famosa fábrica de vermute, pára nos boxes e sai do Maserati sem demonstrar qualquer irritação. Alega um problema qualquer e comunica sua desistência ao comando da prova.
Varzi, a essa altura, já é terceiro.

Na ponta, Nuvolari abre uma diferença confortável para o segundo colocado, “BaconinBorzacchini.

Ao se aproximar da reta principal do circuito, o Bugatti de Varzi começa a falhar.

Entretanto, mesmo com problemas, se aproxima e passa a ameaçar Borzacchini.

Este, ao tentar se defender das investidas de Varzi, bate em um tambor vazio, usado para demarcar a pista.

Mesmo sem muitas avarias, o piloto da Alfa-Romeo prefere abandonar a corrida.

Achille abre a última volta a frente de um grupo de carros lentos. No "bolo", Henry Birkin realiza falsas investidas para tomar a posição de Varzi.

Quando faltavam poucos metros para a bandeira quadriculada, o Alfa-Romeo de Nuvolari pára a poucos metros da linha de chegada, sem gasolina. Desesperado, o ídolo italiano salta do carro e acena para os mecânicos de sua escuderia, que, em bando, atravessam a pista com um galão de combustível e colocam o carro para funcionar.

Enquanto parte lentamente, o bloco comandado por Varzi surge na reta. O público, em pé, passa a acompanhar uma das chegadas mais apertadas da história.

E Nuvolari perde o confronto para Varzi por milímetros.

Enrico Rivio dispara para cumprimentar Varzi, que sai carregado do carro, cansado e com o rosto cheio de graxa. Ali mesmo recebe a coroa de louros e a taça de "campeão".

Horas depois, Varzi, Nuvolari, Borzacchini e Campari confraternizam no bar do hotel. Italianos autênticos, brincam e falam em voz alta com outros hóspedes. Porém, mal sabiam que haviam se tornado alvos dos comissários desportivos e de toda opinião pública italiana.

No dia seguinte, de ressaca, Varzi abre o jornal e se assusta com as acusações.

Varzi é chamado para depor no Automóvel Clube. Além dele, a entidade colhe depoimentos de Nuvolari, Borzachini, Campari, Birkin, Batillana e Balestrero.

Nos bastidores, decidem que não poderiam punir aqueles que estavam entre os maiores pilotos da Europa. Sem contar que ocorreria o enfraquecimento do automobilismo italiano e a desmoralização da loteria.

Preferiram tratar a situação como um simples vacilo de Varzi, sem relação alguma com uma possível fraude. Advertiram os envolvidos e mudaram as regras da loteria.

Afinal, aquelas pessoas estavam acima do bem e do mal.

E, assim como nos dias de hoje, tudo termina numa bela pizza.

Varzi


Publicado em razão da corrida árabe do domingo. Texto baseado em alguns relatos a respeito do livro "Speed was my life" de Alfred Neubauer. Cito, como referência, em especial, a Revista Auto Esporte, Luiz Alberto Pandini, Luis H. Donald Capps e Dennis David.

6 comentários:

Ron Groo disse...

Estes relatos de GP´s pré F1 são sempre maravilhosos.
Dá a impressão de que era puro romantismo. Que tudo era bravura e todos eram destemidos.
Coisas que só a distancia do tempo dá.
Grande Felipão!

Germano disse...

seria a máfia?

Luís Augusto disse...

Realmente eram outros tempos; até as maracutaias pareciam mais românticas...

Helio Herbert disse...

Felipão gostei muito desse post,desconhecia essa passagem do Grand Prix.

Rianov Albinov disse...

Putz!!!

Que sensacional Felipão!!!
Abraços e parabéns

Daniel Médici disse...

Já tinha ouvido falar desse esquema, mas não com tantos detalhes!

E esse livro do Neubauer deve ser fora de série... Fora que os alemães venceram horrores em Tripoli!